O Macaco: adaptação de Stephen King se perde na comédia
- Nathália Correia
- 3 de mar.
- 3 min de leitura
Stephen King está de volta às telas! À convite da Paris Filmes, no dia 26 de fevereiro participamos da cabine de impresa da nova adaptação do mestre do terror para os cinemas, “O Macaco”, que chega dia 6 de março aos cinemas, e vamos te contar tudo o que achamos sobre o longa. Cuidado: esta crítica contém spoilers!

O Macaco: a origem
“O Macaco” surgiu a partir de um conto famoso do autor Stephen King. A primeira versão publicada dessa história foi em 1980 na Gallery Magazine. Posteriormente, sofreu outras duas revisões para ser encaixado e reaproveitado em outros trabalhos: em 1985, para compor o conjunto de 22 contos reunidos no livro “Tripulação de Esqueletos” (Skeleton Crew) e em 2023 quando deu origem ao curta, de mesmo nome, dirigido por Spencer Sherry.
A história acompanha dois irmãos gêmeos que encontram um macaco de brinquedo estranho que pertenceu ao seu pai. À medida em que entendem o que essa descoberta significa, uma onda de desastres envolve os irmãos e eles só têm duas certezas: as baquetas não podem descer e, caso isso aconteça, ninguém estará a salvo.
Um pouco de tudo, muito de nada
Quando a primeira cena do filme foi exibida, já consegui perceber que não se tratava de um terror comum. Geralmente, filmes dessa categoria não oferecem grandes dificuldades ao espectador para entender o subgênero a que pertencem e quais emoções desejam transmitir. Contudo, o que se mostrou para mim desde o início foi uma bagunça de sentimentos, transitando do terror, para a comédia e para o drama sem um planejamento aparente e deixando os personagens na superficialidade.
Quando olhamos para produções como “Todo Mundo em Pânico”, “Entre Facas e Segredos” e “Garota Infernal”, por exemplo, o humor é aplicado em momentos estratégicos que agregam na narrativa e permitem um respiro ou até uma crítica no meio do contexto da produção. Porém, em “O Macaco”, o diretor não consegue o aprofundamento necessário e mescla, rapidamente, as emoções, tornando o seu uso confuso e desnecessário, haja vista que o espectador consegue prever os acontecimentos e se sente bombardeado por essa transição rápida e crua.

Um exemplo disso acontece, no final do filme, quando Hal descobre o plano de seu irmão Bill para matá-lo, por meio do macaco, e decide fazer as pazes com ele. Neste momento, a trilha sonora, o diálogo e as expressões corporais de Theo James, que dá vida aos gêmeos, revelam o intuito de sair da superficialidade e construir camadas sobre os personagens e seus dilemas, complexificando seus sentimentos. Porém, antes que o espectador consiga ser envolvido pela emoção da cena, o macaco ataca mais uma vez e um canhão explode, arrancando a cabeça do ex-vilão. A forma como o plot twist é construído pode até arrancar risadas, mas exige um deslocamento bruto do drama e da reflexão para uma cena de violência explícita e cômica.
Portanto, no que se refere à narrativa, “O Macaco” se propõe a brincar com vários gêneros cinematográficos e acaba em uma zona cinzenta na qual nada funciona de maneira exemplar.

Contudo, é importante destacar as atuações impecáveis na produção. Se muitos fãs adoraram Christian Convery em “Sweet Tooth”, vão se impressionar com a habilidade do ator mirim em transmitir sentimentos tão pesados e obscuros, como ódio, inveja e vingança na pele dos gêmeos adolescentes. Tatiana Maslany (Orphan Black e She Hulk) e Rohan Campbell (The Hardy Boys e Halloween Ends) também dão um show na atuação e conseguem fazer os seus personagens brilharem mesmo com pouco tempo de tela. Ainda que o uso de diversos subgêneros não tenha me agradado, é inegável o talento de Theo James em conseguir transitar entre os irmãos e os sentimentos sem perder a linha narrativa e o talento.
Outro aspecto positivo a ser destacado é o uso do macaco. É comum em produções do gênero, como “Annabelle” e “Boneco do Mal”, que os brinquedos permaneçam estáticos, cabendo a outros elementos a função de assustar e intimidar o espectador. Na adaptação de Stephen King, o macaco se movimenta e é isso que provoca as mortes instantâneas no longa. Dessa forma, há uma tensão induzida no espectador e cumprida pelo filme no que se refere ao objeto, fazendo com que sempre estejamos atentos às suas mãos e um calafrio percorra o nosso corpo quando as baquetas são acionadas.
Em resumo, “O Macaco” é um filme que vale a pena ser visto, porém deixa a desejar quando comparamos outras adaptações do mestre do terror para as telas.
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