O Melhor Amigo é um romance tropical e musical, mas prefere não se arriscar
- Marcos Silva
- 11 de mar.
- 3 min de leitura
Sabe quando tudo está dando errado e tudo que você precisa é se redescobrir? É com essa premissa que o filme O Melhor Amigo inicia sua história. Assistimos com exclusividade o longa que chega aos cinemas no dia 13 de março, e aqui vão as nossas impressões.
Os caminhos sempre se cruzam em Canoa
Lucas (Vinicius Teixeira) é um jovem arquiteto tímido e metódico que, após uma crise no seu atual namoro, decide escapar da rotina e viajar sozinho para Canoa Quebrada, no litoral do Ceará. Lá o jovem reencontra Felipe (Gabriel Fuentes), um colega de faculdade que atua como guia turístico da região e leva Lucas para conhecer melhor o local.

Conforme exploram juntos a região, desejos antigos vêm à tona, trazendo Lucas em um emaranhado de conflitos em relação aos seus sentimentos. Ele então acaba se entregando às noites quentes de Canoa, buscando preencher um vazio que nem sabia que existia.
O elenco grita carisma
As atuações estão ótimas, Vinicius Teixeira e Gabriel Fuentes dão conta do recado e vida aos personagens, principalmente Gabriel. A química entre Lucas e Felipe é intensa e rende momentos que praticamente derretem a tela. Leo Bahia também se sai bem e consegue fisgar um pouco de atenção como Martin, o namorado emocionado que aparece de surpresa.
O elenco de apoio, por sua vez, tem personagens interessantes demais para ficarem de escanteio. As drags “fadas madrinhas” mereciam mais tempo de tela, especialmente Denis Lacerda, que dá vida a drag Deydianne Piaf e serve como conselheira de Lucas. Sua narrativa começa promissora, mas acaba subaproveitada.

O maior problema, no entanto, está no protagonista. Lucas não cativa, e isso não se deve à sua timidez, mas pela forma como o roteiro o constroi. Suas inseguranças e dilemas acabam sufocando sua personalidade, como se fossem sua única característica. Falta um arco de desenvolvimento e, no final, ele parece o mesmo de sempre, sem evolução.
A estética tenta sustentar a história
A fotografia do filme aposta em planos calculados, focando nos personagens e evidenciando a beleza vibrante da região cearense. Tudo é alegre, colorido e saturado, e sugerem ali, em meio ao sol e ao mar, a chance de Lucas abandonar uma persona contida e cheia de culpas que não lhe pertencem. Até mesmo os takes noturnos preservam essa identidade visual, com silhuetas e sombras que capturam a energia das festas e baladas LGBTQ+.
Isto é tudo que a fotografia consegue comunicar, já que o roteiro, por outro lado, não acompanha essa ousadia. Ele se mantém no caminho mais seguro possível, sem arriscar ou desafiar suas próprias limitações. A sensação que fica é de uma história que poderia ir além, mas escolhe não fazê-lo, e isso decepciona.

Apesar disso, os momentos musicais do filme são um acerto. Mergulhar na mente dos personagens e traduzir seus sentimentos por meio da música e da dança ajudam a dar um gás na narrativa. As cenas são bem conduzidas, com coreografias bem dirigidas e um toque lúdico que combina com a proposta do filme. Com exceção da cena do primeiro ato, onde os cortes de câmera não foram uma boa decisão, as demais foram satisfatórias.
Faltou mais sal e pimenta
Para quem busca apenas um romance leve e despretensioso, a experiência com O Melhor Amigo pode ser satisfatória. Minha frustração, no entanto, está na forma como o filme trata sua temática queer, desperdiçando um potencial interessante.
O vazio existencial de um homem gay buscando afeto em relações que evaporam durante a noite é um tema recorrente e potente dentro do gênero, mas aqui ele se mantém na superfície. Faltou só um olhar mais afiado que provocasse qualquer tipo de reflexão.

Odeio fazer comparações entre produções nacionais e internacionais, mas a título de referência, Fire Island é um bom exemplo de um romance que abraça o pastelão sem medo, mas ainda assim consegue discutir a superficialidade das aparências e do corpo gay, tudo sem sair da proposta inicial. No fim, o filme parece pouco interessado em dar asas a essa questão, deixando apenas ser um pano de fundo para uma história que joga no seguro até demais.
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