Vitória: Fernanda Montenegro ainda tem muito a nos mostrar
- Maurício Neves
- 13 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de mar.
Vitória, dirigido por Andrucha Waddington e Breno Silveira, com roteiro de Paula Fiúza, é a segunda produção a receber o selo Original Globoplay (o primeiro sendo Ainda Estou Aqui).
Estrelado por Fernanda Montenegro e baseado em uma história real, o filme chega aos cinemas brasileiros no dia 13 de março, com distribuição da Sony Pictures Entertainment.
Confira, a seguir, nossas considerações.

Enredo
Nina (Fernanda Montenegro) é uma senhora solitária e aflita com a violência que domina sua vizinhança. Em conflito com seus vizinhos, ela começa a gravar tudo da janela de seu apartamento, registrando a movimentação de traficantes de drogas. Com a intenção de auxiliar o trabalho da polícia, sua atitude chama a atenção de um jornalista, que tenta ajudá-la nessa missão.

Roteiro
Trazendo para o contexto real, Joana Zeferino da Paz viveu durante muito tempo sob anonimato forçado no programa de proteção a testemunhas. Conhecida pelo pseudônimo de Dona Vitória, ela se tornou um símbolo de resistência ao registrar, com sua câmera, aos 80 anos, a movimentação criminosa em sua comunidade. Sua coragem contribuiu para a prisão de diversos traficantes e policiais corruptos. Joana morou em diferentes cidades até sua morte, em Salvador, no dia 22 de fevereiro de 2023, aos 97.
O filme começa apresentando o Rio de Janeiro de 2005. Conhecemos Nina, uma senhora que leva sua rotina na comunidade, fazendo compras, conversando com os moradores da região e ajudando crianças em situação de vulnerabilidade.
Ela mora sozinha em seu apartamento e raramente recebe visitas ou ligações de conhecidos. Dizem que, conforme envelhecemos, a solidão vai aumentando. Fernanda Montenegro consegue transmitir esse sentimento tocantemente, revelando o desejo de ter companhia, nem que seja por algumas horas. Isso fica evidente em todas as ocasiões em que encontra alguém e o convida para tomar um café em sua casa. Mesmo em uma fase mais madura da vida, ela continua trabalhando como massagista.
Nina desenvolve uma forte afinidade com Marcinho, um garoto da comunidade que sempre a ajuda a carregar as compras e é um dos poucos que a visita. Com o tempo, também se aproxima de Bibiana, uma vizinha que compartilha de suas preocupações. Apesar das diferenças de idade e realidade, ambas encontram acolhimento e segurança uma na outra.
Incomodada com a violência crescente em seu bairro, Nina vai até a delegacia. No entanto, ao não ser levada a sério, decide comprar uma câmera para registrar os acontecimentos da rua e reunir provas.
Por ser uma mulher idosa, sentimos medo por sua segurança a todo momento. No entanto, a personagem se recusa a ser definida pela idade e demonstra coragem em cada cena. Embora o filme evidencie as fragilidades trazidas pelos anos, Fernanda Montenegro transforma isso em potência, entregando uma atuação marcante do início ao fim.

Elenco
A consagrada Fernanda Montenegro mais uma vez demonstra por que é uma das maiores atrizes do Brasil. Indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro, a atriz, hoje com 95 anos, carrega 95% do filme nas costas. Sua interpretação é sempre surpreendente, e aqui vemos a delicadeza do roteiro ao tratar sua personagem. Apesar da fragilidade física, ela transmite força e emociona em cada cena.
Alan Rocha, Linn da Quebrada e Thawan Lucas se destacam e trazem um brilho próprio ao filme. O carinho evidente de todos pelo projeto e pela honra de atuar ao lado de Fernanda Montenegro é palpável, criando uma química única entre os personagens.

Considerações
Vitória foi o último trabalho de Breno Silveira, que faleceu em 2022 devido a um infarto durante as gravações iniciais do filme. O projeto foi retomado por seu amigo Andrucha Waddington, também esposo de Fernanda Torres e genro de Fernanda Montenegro.
A escalação de Fernanda no papel principal gerou controvérsias, já que a atriz interpreta uma mulher negra. A identidade de Joana Zeferino da Paz foi revelada publicamente somente após sua morte, em 2023.
Andrucha, aclamado por seu trabalho na série Sob Pressão, demonstra toda a sua experiência na direção, trazendo um retrato autêntico do Rio de Janeiro. Pessoalmente, considero Sob Pressão uma das melhores séries brasileiras e sempre me interesso por qualquer projeto assinado pelo diretor, pois sei que será uma obra de grande qualidade.
Fotografia, direção, roteiro, trilha sonora e atuações se harmonizam para construir uma narrativa envolvente até o último minuto. Vivemos o início de uma nova era para o cinema nacional.
É um privilégio viver na mesma época de Fernanda Montenegro e testemunhar seu talento incomparável.
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